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O tempo e o conflito geracional

Existe uma cena silenciosa que se repete em qualquer sala de jantar nestes nossos tempos. De um lado, a urgência de quem construiu a vida empilhando certezas, horários fixos e o peso de que o futuro exigia sacrifício. Do outro, a pressa mansa de quem nasceu com o mundo inteiro cabendo na palma da mão e desconfia que o sacrifício, talvez, não valha a pena. O conflito geracional nunca foi, de verdade, sobre a música alta, a roupa rasgada ou a gíria nova que muda toda semana. Isso é só a casca. O atrito real acontece no choque entre duas formas de sentir o tempo.

Para quem veio antes, a estabilidade era o porto seguro — o emprego de trinta anos, a casa própria comprada a ferro e fogo com muito suor e esforço, a linha reta que ia do estudo à aposentadoria. Para quem chega agora, essa mesma linha reta parece menos uma promessa e mais uma armadilha. Por que sacrificar o presente por um amanhã que mudou de forma, de preço e de sentido? A gente costuma olhar para esse fosso com um misto de ironia e cansaço. Os mais velhos balançam a cabeça lamentando a suposta falta de foco dos mais novos, enquanto estes reviram os olhos diante do que chamam de visão arcaica de mundo. Um silencioso conflito de gerações. Mas o que escapa nessa troca de farpas é que ambos estão tentando resolver a mesma equação básica: como encontrar significado em estar vivo.

O curioso é que, se a gente raspar a superfície, a distância diminui. No fundo, o medo do avô, que acha que o neto não vai dar certo, é o mesmo medo do neto de desapontar quem abriu os caminhos antes dele. Só mudaram as ferramentas. O que muda de verdade não são os valores fundamentais, mas a gramática com que cada época decide dizê-los. No fim das contas, essa fricção toda é o motor invisível que empurra o mundo para frente. Se houvesse concordância total, a história empacaria. É justamente no desconforto dessa ponte mal construída entre o que já passou e o que ainda está nascendo que a gente aprende, meio a contragosto, a olhar para o outro e pensar: “Poxa, nunca tinha visto por esse ângulo!”

Há séculos essa cena se repete nas mesas das casas, em maior ou menor intensidade, cada época com seus diferentes problemas a serem resolvidos, mas a reprise continua a acontecer. E você, qual foi a última conversa em que percebeu esse abismo se estreitando na sua própria família?

José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida e LIV (Laboratório Inteligência de Vida). Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.

O tempo e o conflito geracional