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Fim da criminalização do professor

O passado tem muito a ensinar às gerações atuais, sejam as mais recentes e até às mais antigas, aquelas mesmas que viveram tempos bem diferentes dos de agora. É preciso olhar para os erros para não repeti-los e, principalmente, para os acertos, as atitudes corretas e coerentes que fizeram parte da vida das pessoas. Aprender com o passado não significa viver com a cabeça em 40, 50 anos atrás. Uma das situações que deve servir de exemplo é a do respeito devido aos professores. Todos, nas mais variadas profissões, sejam as mais humildes até as de alto escalão, tiveram mestres que os auxiliaram no aprendizado. Sem qualquer tipo de saudosismo barato, mas os professores de décadas atrás eram respeitados pelos pais principalmente pelos alunos, aqueles que recebiam o conhecimento transmitido nas aulas.

De uns tempos para cá os educadores deixaram de ser referência para alunos, familiares e – pasmem! – para os homens e mulheres que regem a Educação no Brasil. Esses dirigentes dos mais variados níveis – federal, estadual, municipal – escolheram caminhos que conduziram o processo educativo a um ponto em que alguns mestres perderam a autonomia em seu ambiente de trabalho, a sala de aula. Isso provoca reações das mais diversas e quem acompanha os noticiários já deve ter visto imagens e lido relatos de agressões verbais e até físicas contra eles, que foram colocados sob suspeita, foram criminalizados em sua autoridade diante da classe. Essa desconfiança aumenta ainda mais a já forte pressão sofrida pelos professores, exigidos pela direção da escola, por políticos ligados ou não à área, pelos pais que veem seus filhos como os únicos importantes na escola. No entanto, eles estão ali dividindo espaço e atenção com o restante da classe, algo que também ocorrerá num breve futuro, na vida profissional deles.

Essa postura de pais e responsáveis começa em casa, onde as crianças, os jovens e os adolescentes ouvem e participam das conversas, e desemboca na sala de aula. Ali os professores são obrigados a pedir silêncio várias vezes e isso, aliado ao que eles ouvem e veem em casa, desqualifica os mestres que perdem a autoridade pedagógica, pois alguns estudantes querem aprender, enquanto um grupo desinteressado insiste em simplesmente tirar a nota mínima para, como de dizia no passado, ‘‘passar de ano’’. Quando os professores se mostram mais rigorosos em busca de controlar a classe, são criminalizados primeiramente pela escola, justamente quem deveria ser seu apoio inicial. As instituições de ensino carecem de um protocolo de regramento para ser seguido pelos estudantes sem a interferência dos responsáveis por eles. Os alunos se tornaram protagonistas nas escolas, mas é preciso dividir essa posição com os mestres, que têm de voltar a ser protagonistas da Educação.

Crianças, adolescentes e jovens necessitam voltar a entender, de maneira clara e incisiva, que durante as aulas existem momentos de falar, de escutar, de calar, de se divertir e, principalmente, de aprender. Para que os professores voltem a ser protagonistas do ensino e repassar conhecimento aos alunos, os principais integrantes das escolas, os responsáveis pela educação nos vários segmentos precisam dar o primeiro passo, nem que seja um simples aceno, na mudança direcional da educação no Brasil. Um tipo de provérbio atual resume muito bem a sonhada volta a um passado não tão distante: ‘‘Quem aprende cresce, e quem cresce transforma o mundo.’’

José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida e LIV (Laboratório Inteligência de Vida). Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.

Fim da criminalização do professor