Nestes momentos de isolamento social provocados pelo Covid-19, que quase se transformam em reclusão, eu, professor Chiarella tenho mais tempo ainda para pensar sobre a situação da Educação no Brasil, especialmente na cidade de Santos, meu principal alvo, pois é onde moro. Quero começar este Blog do Chiarella com um elogio aos professores em geral que tiveram, e continuam a ter, de se reinventar com essa pandemia do coronavírus. Num curto espaço de tempo todos nós tivemos de aprender a lidar com dispositivos tecnológicos, gravar aulas, falar para a câmera, algo totalmente diferente da aula normal. Essa posição do professor, acostumado à agitação das salas de aula, acaba sendo um novo desafio, pois tem outra dinâmica.
O Governo de São Paulo projetou a volta às aulas para a primeira quinzena de maio. Isso em teoria, pois todos precisamos ver qual será o caminho dessas seguidas quarentenas que enfrentamos. Mais do que a ausência nas salas de aula e eventuais aulas on line, no retorno – seja lá quando for – teremos um desnível de aprendizado, algo que não acontece nas aulas presenciais. Normalmente uns aproveitam mais, outros menos e nesse novo cenário temos a falta de motivação pela ausência dos professores e dos companheiros ao lado, a comodidade, quando se está em casa mais relaxado e ninguém exigindo sua atenção, e o que considero o pior de todos: a impossibilidade de acessar às aulas.
Tudo bem que os professores têm feito sua parte, mas minha dúvida é quantos alunos têm acesso à internet para acompanhar as aulas? Temos famílias com mais de um aluno no Fundamental I e Fundamental II, responsabilidade da Prefeitura de Santos, e que vivem em pequenos cômodos com oito, nove, dez pessoas. Nesse caso o que fazer se dois, três quatro tiverem de assistir as aulas? Quantos computadores e locais para se acompanhar aulas esses grupos possuem em suas casas? Eles não conseguem se conectar ao mesmo tempo! Mais ainda: qual a quantidade de dados de internet eles têm para gastar em horas de aulas? Aí é que deveriam entrar o prefeito e a secretária de Educação de Santos e proporcionar internet gratuita para todos. Num momento como esse, acesso à rede é gênero de primeira necessidade educacional.
Para que não fique nenhuma dúvida sobre o título deste Blog do Chiarella, vou explicar a diferença entre educar e ensinar. Educação é algo mais amplo do que ensinar. Não implica somente em repassar conhecimento. Vai muito além, pois ajuda a formar o caráter dos alunos, que num futuro próximo estarão à frente da sociedade. Já o ensino está relacionado às matérias como Português, Matemática, Ciências, Geografia e outras – indispensáveis, claro – administradas nas classes e que servem para preparar os alunos para fazer a prova do Enem e buscar vagas nas universidades. Educação e ensino precisam ser trabalhados em conjunto para que possamos formar homens e mulheres de caráter, conscientes de seus direitos e deveres. Prepará-los para serem aprovados nos exames que virão pela frente é fundamental para complementar a educação, mas não é tudo.
Minha preocupação com relação ao ensino nas escolas municipais de Santos, também paralisadas devido à ameaça do coronavírus, é o que os vereadores da Câmara Municipal, o prefeito e a secretária de Educação entregarão a quem assumir a Prefeitura em 2021? Será algo que não pode ser totalmente colocado na conta do Covid-19!
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.