O que para quem trabalha com Educação parece mais do que óbvio, para alguns políticos do Brasil a escolha por ser professor ainda é considerada a última opção, coisa de quem não consegue outro emprego e acaba caindo nas salas de aula. Estranho ouvir isso de gente que precisou de um mestre para ensiná-lo, desde as primeiras letras até o mestrado, doutorado, MBA e pós-doutorado, mas… Mais do que clara essa tosca ideia tupiniquim tem sido desmentida em todos os lugares do mundo e em alguns países, como o Japão, o professor é o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador. Um sinal de respeito do maior líder do país àqueles que ensinam.
Recentemente um mestre da Inglaterra fez uma pesquisa e constatou que “ser professor deve ser o trabalho mais importante do século 21“. Em entrevista ao site da BBC, Alex Beard contou suas experiências nas viagens por mais de vinte países em busca de ideias e ferramentas alternativas para ensinar e enfrentar os desafios deste século. Ele reuniu todas as experiências no livro Natural Born Learners. Praticamente tudo o que ele descreve eu, professor Chiarella, tenho escrito aqui neste Blog do Chiarella. Quem me acompanha nestes textos sabe muito bem o que falo. Vejam, por exemplo, uma das declarações de Beard.
“A criatividade, a capacidade de resolver problemas e a importância dos professores são os grandes desafios das escolas. E tudo isso em meio à grande incógnita de como lidar com novas tecnologias e inteligência artificial”, disse o professor que deixou o trabalho numa escola no Sul de Londres, capital da Inglaterra, depois de se sentir estagnado na profissão e sair em busca de novas e alternativas ideias.
Minhas colocações neste espaço criado para tentar melhorar a Educação como um todo, com enfoque especial em Santos, a cidade onde moro, vão ao encontro do que Beard pensa. Defendo a ideia de que os alunos precisam ser preparados para a vida através do ensino e de maneira prática. Eles têm de entender para que servirão os cálculos matemáticos, as informações da língua portuguesa brasileira, enfim, tudo o que recebem nos bancos escolares.
“Acho que esse é o maior erro que estamos cometendo atualmente: as escolas permaneceram no passado e, com esses métodos ultrapassados, passamos 12 anos nas salas de aula, por isso é muito difícil mudar nossos conceitos sobre como a escola deve ser. Eu me toquei que estava aplicando os métodos que Sócrates usava na ágora (local onde na Grécia antiga era o mercado e se reuniam as assembléias do povo), há cerca de 2 mil anos, para ensinar crianças que tinham telefones celulares e viviam no futuro. O segundo desafio que a educação enfrenta hoje é que não se sabe claramente em que focar, levando em consideração o futuro. Quando me vejo de novo na sala de aula, me vejo como um professor que ensina crianças a passar em uma prova.“
Concordo, e reitero que tenho colocado essas ideias no meu blog, e temos de levar em consideração que as nossas crianças e os nossos jovens vivem num mundo digital fora das escolas. Se bem que neste último ano a pandemia nos levou, a todos, a trabalhar on line e a usar mais a tecnologia. Outro grande problema detectado por Beard é o das profissões do futuro. Educadores como um todo, professores, diretores, coordenadores, e aí me dirijo especialmente à escola pública, têm sido capacitados para este novo momento? Não! Nossos mestres deixam de receber a preparação adequada e acabamos não formando da maneira correta os alunos para o futuro.
Na contramão do que alguns políticos pensam aqui no Brasil sobre o professor, veja o que diz Beard: “..em 2013, um estudo da Oxford Martin School revelou que 700 profissões poderiam ser substituídas por robôs no futuro, mas nenhum dos empregos relacionados ao ensino estava com os dias contados. E é verdade. Isso acontece porque ensinar é definitivamente um processo humano“, finalizou o inglês.
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.