Nestes tempos de pandemia quem está envolvido diretamente com a Educação se faz várias perguntas. Uma das principais é quanto os alunos perderam da qualidade do ensino nesses longos dias, semanas, meses, longe dos professores e das salas de aula? Como tenho mostrado neste Blog do Chiarella, os estudantes das escolas particulares foram os menos derrotados, pois normalmente pertencem a uma classe social mais alta, suas famílias têm condições de ter internet rápida e eles puderam acompanhar com normalidade as aulas on line em suas casas.
Pesquisa recente mostra que enquanto 92% pessoas das classes A e B (em geral os frequentadores das escolas particulares) têm banda larga da internet em suas residências, entre os familiares dos segmentos C e D cerca de 50% conseguem acessar a rede mundial e ainda assim com muitas falhas na recepção. Grande e terrível desigualdade. Eu, professor Chiarella, alertei sobre essa dificuldade aqui neste meu espaço, criado para falar sobre a Educação em Santos, a cidade onde moro. Com esses dados da pesquisa, chegamos à conclusão de que muito das aulas on line e das matérias transmitidas foram perdidas. Isso sem falar na preparação dos professores das duas redes. A particular tem profissionais da educação adequadamente capacitados, enquanto que o mesmo não acontece na rede pública.
Tenho alertado que enquanto os mestres das escolas privadas já foram e constantemente continuam a ser preparados para o presente e o futuro, os do ensino municipal, especialmente daqui de Santos, não têm aperfeiçoamentos e adequação para os novos tempos que vivemos já há alguns anos. A Educação municipal, responsável diretamente pelo Fundamental I e Fundamental II, se ressente da falta de planejamento e de interesse da administração do prefeito Paulo Barbosa. O dirigente maior da cidade só pensa em política e em entregar obras, até mesmo na Educação, mas sem preparar o ser humano, no caso professores, supervisores e diretores, para utilizar e se comunicar da maneira correta com os alunos. Triste, muito triste vivermos este momento.
Também ficou claro nestes tempos de pandemia que a aula remota é totalmente diferente de Ensino à Distância (EAD), para alunos e professores, onde o mestre tem contato com os alunos, sabe exatamente o que eles fazem e esclarece suas dúvidas ali, ao vivo, dentro da classe e na hora. A chamada é feita e, em geral, os professores têm controle sobre a situação. Na aula on line aparecem os rostos das crianças e dos jovens. Isso para aqueles cujos pais possuem dados de internet suficientes para acompanhar diariamente os ensinamentos, sem as interrupções provocadas pelas falhas nos sinais de baixa intensidade, na verdade, os mais baratos e acessíveis a boa parte das famílias dos alunos da rede pública de ensino. Digo e repito que a Prefeitura de Santos falhou ao não abrir a rede para os alunos terem o correto e necessário acesso.
Essa conexão boa auxilia os alunos a não desviarem a atenção durante as aulas. Se isso já acontece, claro em muito menor intensidade, dentro das classes, imagine num celular ou computador com seguidas falhas ou até mesmo paradas? Ninguém tem certeza que a cabecinha deles está 100% focada nos ensinamentos. Esse ônus, de manter a atenção e supervisão dos alunos, ficou para as famílias. Quanto se perde da qualidade do ensino é extremamente subjetivo e varia de caso para caso. Esse novo sistema vai permanecer. Temos de conviver e utilizar, da melhor maneira possível, a tecnologia que temos à disposição. As atividades não presenciais continuarão com uma nova proposta, pois as crianças e jovens voltarão às classes e ao aprendizado regular. Mas aprendemos a usar melhor a internet.
Muito dinheiro foi gasto durante a pandemia do Covid-19 em obras visíveis. Para a Educação nada foi feito, pois alunos e professores enfrentarão problemas de toda a ordem nesse retorno às aulas, dificuldades de readaptação, pois nunca tínhamos passado por algo parecido. Dentro do processo educacional nada foi feito pelas crianças e pelos jovens nestes tempos de coronavírus. Difícil, trabalhoso, custoso desolador cobrar a Prefeitura. Enquanto isso a educação das escolas particulares enfrenta eventuais medidas em outros Estados, via Ministério Público, na equivocada tentativa de reduzir as mensalidades afastando o diálogo. Certo que os alunos tenham sido ensinados numa nova metodologia eficaz de aula, já que essa pandemia não foi criada por ninguém. A rede particular e seus mestres se reinventaram para suprir a emergência da educação. Os diretores continuaram a trabalhar e os professores a dar aulas, corrigir provas e dar notas.
Queria fazer essa mesma defesa da escola pública, mas não dá. Além dos problemas já citados da falta de acesso adequado à internet, não me canso de falar e repetir que não temos professores com oportunidade de capacitação adequada fornecida pelo Poder municipal. Não tenho visto nada da parte do prefeito Paulo Barbosa, que está sendo cobrado pelos vereadores sobre a prestação de contas dos gastos com grandes e visíveis obras. Isso mostra o quanto ele relegou nos seus dois mandatos à frente da cidade, a Educação das nossas crianças e dos nossos jovens, que são o futuro de Santos, do Brasil e do mundo.
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.