Na vida temos de aprender a ter e a dar autonomia. Uma das virtudes dos grandes líderes é saber distribuir autoridade e autonomia aos seus comandados. No dia a dia temos de fazer isso com nossos filhos, netos, sobrinhos, nossas crianças e jovens, para que no futuro eles também possam tomar decisões e, eventualmente, distribuir orientações para os outros. O processo de autonomia deve ter início já nos primeiros anos de vida e consiste, basicamente, de algumas fases distintas. A primeira, com crianças de cerca de três anos, quando ainda temos de dizer a eles o que devem fazer nas escolas e em casa. É necessário orientá-los e treiná-los em ítens triviais, como guardar os brinquedos, separar a roupa suja e levá-la para o local adequado. Enfim, devemos estimular essas atitudes e, mais do que isso, incentivar movimentos autônomos, claro, tudo com a devida supervisão dos pais.
A partir dos cinco anos os responsáveis devem dar tarefas mais complexas, como cuidados de higiene pessoal, escovar os dentes, por exemplo, acostumar-se para sair e arrumar as gavetas de roupas, enfim, noções de cuidados com suas coisas que num futuro próximo, com certeza, lhe serão bastante úteis. Aos sete anos eles dão um passo maior e já podem começar a colocar em prática o que aprenderam em casa, pois passam a visitar e a dormir na casa dos amigos e amigas, na casa dos avós, dos tios e das tias e já podem aplicar o que foi assimilado desde os primeiros anos de vida. Dos dez anos em diante as crianças, quase adolescentes, entram numa fase mais interessante e aprendem a não falar com estranhos e se adaptam a participar e a integrar eventos sociais como festinhas de aniversário e outras reuniões.
Em tudo o que foi descrito é fundamental destacar que minha ideia neste Blog do Chiarella não é a de deixar as crianças e os jovens totalmente livres, leves e soltos para tomarem decisões. Temos, sim, de incentivá-los a terem independência, a fazerem suas escolhas, prepará-los para a vida, mas sempre sob a orientação dos responsáveis. Existe uma confusão nesse entendimento e muitos pais deixam a garotada decidir o caminho a tomar e quando, e ainda se faz isso ou aquilo. Essa é uma situação complexa, pois crianças não possuem esse discernimento aperfeiçoado. Com isso, eles não crescem no dia a dia e no ambiente escolar, que hoje anda bem distante devido à pandemia da Covid-19 e à quase que obrigatoriedade das aulas on line.
Esse processo de autonomia educacional, assim como tudo na vida, tem erros e acertos. Queremos que as crianças e os jovens tenham discernimento, pois estamos formando os nossos futuros líderes, seja da cidade de Santos, onde eu, professor Chiarella, moro, seja no Estado de São Paulo ou no Brasil. Pesquisa de 2019, divulgada há pouco tempo, mostrou que a Educação enfrenta dificuldades imensas na tentativa de aulas on line. Os dados do levantamento mostram que 4,1 milhões de alunos não possuem internet com capacidade suficiente para acompanhar os ensinamentos da forma adequada (cortes, travamento da imagem e áudio fragmentado, por exemplo), a ampla maioria estudantes da rede pública de ensino. Isso mostra que o Estado como um todo não tem cumprido seu papel de investir verdadeiramente na Educação e não somente na teoria, no papel. Assim, os governos não transformam isso em realidade para grande parte da população brasileira.
O mundo mudou, mudou o ensino, mudou a metodologia e com essa falta de investimento do poder público, aumenta a cada dia o abismo entre as classes sociais, o que só faz crescer a força da dominação dos mais ricos sobre os mais pobres. Isso tudo leva à evasão dos alunos das escolas, o consequente rompimento da base educacional com tristes resultados que ainda não podemos medir. Com certeza sentiremos isso num futuro não tão distante.
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.