• Acesse as minhas redes sociais:

Seu filho ou meu aluno?

Quem convive com adolescentes já ouviu essa história. A mãe chega à reunião de pais certa de que vai ouvir elogios, afinal o filho mal fala em casa, passa horas no quarto e responde quase tudo com um “tá bom”. Aí o professor conta que o menino é falante, faz piada com a turma e às vezes até precisa ser chamado a atenção. Ou acontece o contrário: em casa a menina é agitada, discute com os irmãos, e na escola quase não abre a boca. A pergunta vem quase sempre do mesmo jeito: estamos falando da mesma pessoa?

Estamos, sim. E isso é muito mais comum do que se imagina.
Entre o 6º ano do Ensino Fundamental e o fim do Ensino Médio, o jovem passa por uma fase de grandes descobertas. Ele está tentando entender quem é, do que gosta, onde se encaixa. Em casa, se sente seguro. Sabe que é amado e que, mesmo depois de uma briga, tudo volta ao normal. Por isso relaxa, mostra o cansaço, o mau-humor e também o lado mais carinhoso. Na escola, a história é outra. Lá ele está no meio dos colegas, quer ser aceito, quer ter um lugar no grupo e acaba testando jeitos diferentes de ser. Às vezes exagera, às vezes se retrai. Nada disso quer dizer que seja falso em um lugar e verdadeiro no outro. Nós, adultos, fazemos a mesma coisa. Ninguém age no trabalho como age no almoço de domingo com a família. Ajustar o comportamento ao ambiente é sinal de que a pessoa está aprendendo a viver em sociedade.

Vale lembrar também que o corpo e as emoções estão mudando rápido nessa idade. Num dia o adolescente quer colo, no outro quer distância. Num momento acha que sabe tudo, no seguinte se sente perdido. Os amigos passam a ter peso enorme nas escolhas, e a opinião da turma às vezes parece valer mais do que a dos pais. Isso assusta muitas famílias, mas faz parte do processo de ganhar autonomia. O importante é que ele saiba que pode voltar para casa e encontrar um porto seguro. E é justamente aí que a escola tem um papel que vai muito além das matérias. É no pátio, na fila da cantina, no trabalho em grupo e até nas pequenas discussões entre amigos que o jovem aprende a esperar a vez, a ouvir quem pensa diferente, a perder sem desistir e a pedir desculpas. Ele descobre que suas atitudes têm consequências e que conviver exige respeito. Essas lições não cabem em nenhuma prova, mas vão acompanhá-lo pela vida inteira, no emprego, nas amizades e na família que um dia ele mesmo vai formar.

Por isso, a parceria entre família e escola faz tanta diferença. Quando a escola entra em contato para falar de alguma dificuldade de comportamento, o melhor caminho não é se defender nem procurar culpados. É conversar. O professor enxerga uma parte do jovem que os pais nem sempre veem, e os pais conhecem coisas que a escola nunca vai saber sozinha. Juntando essas duas visões, fica muito mais fácil entender o que está acontecendo e ajudar de verdade. Uma conversa franca, sem julgamentos, costuma resolver em poucas semanas o que meses de silêncio só fariam crescer. Algumas atitudes simples ajudam muito: perguntar como foi o dia e ouvir a resposta com calma, comparecer às reuniões escolares, manter o diálogo aberto com os professores e mostrar ao filho que casa e escola estão do mesmo lado. O jovem percebe quando os adultos à sua volta falam a mesma língua, e isso lhe dá segurança para crescer. No fim das contas, o filho que chega da escola calado e o aluno que conversa sem parar na sala são a mesma pessoa, em momentos diferentes de um mesmo caminho. Entender isso é o primeiro passo para acompanhar de perto esse amadurecimento, com paciência, firmeza e muito afeto.

José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida e LIV (Laboratório Inteligência de Vida). Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.

Seu filho ou meu aluno?