• Acesse as minhas redes sociais:

Jovens com depressão climática

A simples, e por vezes normal, pergunta: será que vai chover? pode ser indicativo de um mal que tem afetado importante parte da humanidade, especialmente os mais jovens. Este pode ser o primeiro sinal da ecoansiedade ou ansiedade climática, que consiste, segundo a Associação Americana de Psicologia, no medo crônico do impacto com os visíveis sinais da mudança climática e na preocupação com o futuro da atual e das gerações que virão. Esse medo, intensificado pelos cada vez mais constantes e vistos, desastres ambientais, se tem tornado recorrente entre essa faixa etária. É o que apresenta o resultado da pesquisa da Universidade de Bath, na Inglaterra, quando foram entrevistados cerca de 10 mil jovens entre 16 e 25 anos de todo o mundo. Para 75% desse público, o futuro é assustador. Curiosamente, os brasileiros estão entre as maiores vítimas da ecoansiedade.

Os motivos são fáceis de serem observados. Na periferia das grandes cidades, especialmente das capitais, esse grupo que fez parte da pesquisa inglesa tem de lidar com a constante falta de água, a ausência, muitas vezes total, de saneamento básico entre outros problemas. Os jovens de locais mais afastados, além dessas dificuldades também enfrentam a ausência da demarcação das terras, o racismo e a insegurança de suas posses. E são eles justamente que mais sofrem com as consequências da ansiedade climática ou ecoansiedade. Essa desigualdade brasileira potencializa o aumento desse problema que passa a ser de saúde – física e mental -, especialmente no caso da invasão territorial, com destaque mais localizado nas áreas rurais. Muitas vezes esse sentimento de ter um espaço particular é tudo o que lhes é permitido e a impaciência, um dos resultados da ansiedade, os leva a apresentar sinais dessa doença que se tem disseminado.

Essa inquietação com o clima mundial no futuro leva alguns casais da mesma faixa etária a eliminarem de suas vidas a possibilidade de gerar filhos. E essa atitude não se restringe ao Brasil, pois de acordo com pesquisa da revista Climatic Change, 60% dos casais norte-americanos entre 27 e 45 anos se disseram preocupados em trazer uma criança ao mundo por medo desse desequilíbrio ambiental provocado pelo próprio ser humano. Mais ainda, 96% apresentaram como argumento para não ter filhos a dúvida sobre o caminho que tomarão, no futuro próximo, as condições climáticas. O mesmo levantamento mostrou que 96% relataram inquietação com o bem estar de uma criança num mundo com significativas mudanças no clima. Esse grupo tende a observar o planeta focado na perturbação climática provocada pelos homens e isso os leva a tomar atitudes radicais como a de não procriar.

Essa escolha, combinada com a ansiedade sobre como o planeta tende a se comportar à medida que aquece, aprofundou o abismo entre os jovens, que veem o futuro através das lentes da perturbação climática, e as gerações mais velhas, que não estarão na Terra para ver os resultados negativos. Em alguns anos os bebês, digamos assim, das mudanças no clima, serão em maior número do que os que cresceram antes de essa crise ser estudada e ter eventuais resultados apresentados. Em entrevista para o site da National Geografic, Caroline Hickman, psicoterapeuta britânica e principal autora do estudo da Lancet, uma das mais conceituadas e antigas revistas acadêmicas do mundo, disse: “O que nos surpreendeu foi o quão assustados eles estavam. As crianças levam para o lado pessoal. Eles sentem que o que estamos fazendo com a natureza, estamos fazendo com eles.”

José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para ag Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.

Jovens com depressão climática