Esse momento de enfrentamento do coronavírus, o Covid-19, nos leva a passar por situações nunca enfrentadas em nossas vidas. Eu, professor Chiarella, me mantenho em isolamento e aproveito para analisar mais ainda a situação da Educação em Santos, cidade onde moro e o principal motivo da criação do Blog do Chiarella. Segundo o prefeito de Santos, que rigidamente obedece as orientações do governador João Dória, as aulas voltarão nas escolas santistas, gradativamente, depois do dia 10 de maio, como determinou o mandatário maior do Estado. No entanto, como o governador disse que pode reavaliar a situação caso o índice de pessoas que deixaram de se isolar continue se mantendo abaixo dos 50% (o ideal é 70%), ainda não temos certeza do que realmente acontecerá. Vamos esperar para ver.
Enquanto isso, acompanhamos uma situação de grande desigualdade nas escolas de Santos. A rede particular de ensino oferece um sistema operacional que ajuda o professor a desenvolver sua aula e a levar conhecimento aos seus alunos. Esse uso correto humaniza a tecnologia, atinge os alunos e os aproxima do professor, mesmo que de maneira virtual. O Estado, e aqui me refiro especialmente à cidade de Santos, oferece conteúdo on line, mas sem a necessária aproximação entre professor e aluno. Com as dificuldades enormes para se acessar as aulas, pois nem todas as famílias possuem planos de internet para o acesso às aulas – algo que a Prefeitura de Santos deveria disponibilizar gratuitamente – e da falta que a presença do professor faz para as crianças e os jovens do Fundamental I e Fundamental II, tornamos os desiguais mais desiguais ainda.
Aulas à distância estão provando ser extremamente eficazes e, volto a dizer que a rede particular está dando um show nesse quesito. As escolas privadas usam a tecnologia para manter o contato, digamos pessoal, entre professor e aluno como muitos têm feito para falar com os familiares usando aplicativos audiovisuais que acabam por nos aproximar, ainda que de forma virtual, num momento de isolamento social. O problema está na rede municipal santista, que não capacitou os professores a desenvolverem suas aulas virtuais de forma didático pedagógica. Para isso bastaria treinamento e comprar o aparato tecnológico, à venda no mercado. Salta aos meus olhos a falta de investimento de Santos nesse ponto. Muito pouco dinheiro é colocado na Educação.
Dar férias aos alunos, como foi feito, é tentar curar uma doença grave com um comprimido de açúcar. Todos sabemos que isso não vai curar ninguém! O que fazer para melhorar a situação? Temos a pandemia que vivemos como exemplo, pois apareceu muito dinheiro para a construção dos necessários e utilíssimos hospitais de campanha, para o aumento dos leitos de UTI e para a contratação de médicos e enfermeiros para o atendimento dos milhares de doentes espalhados pelo Brasil e pelas cidades da Baixada Santista.
O triste é que veremos passar um ano em que a Prefeitura de Santos se esquece que seus alunos têm de aprender e não só as matérias curriculares. Na aula os alunos também recebem conteúdos comportamentais, como habilidades socioemocionais, por exemplo. Esse conjunto de ensinamentos que deveria estar sendo passado aos alunos do Fundamental I e Fundamental II os capacitaria, num futuro próximo, a tirar boas notas no exame do Enem e a ter mais facilidade para entrar numa universidade. Para isso é necessário investimento nos professores, nas instalações das escolas, em tecnologia, tudo convergindo para dar o melhor aos alunos. Esses mesmos alunos que em alguns anos estarão à frente da nossa sociedade, estarão comandando a cidade de Santos. De que adianta ter um prédio repleto de tecnologia se poucos, mas poucos mesmo, são capacitados a usá-la?
O que for plantado, ou deixado de ser cultivado agora, será colhido dentro de algum tempo. Se não os formarmos bem colocaremos no mercado de trabalho jovens frustrados correndo atrás do prejuízo e numa busca incessante por uma vaga na universidade pública. Quero que Santos forme gente capaz, com dignidade para entrar nas melhores faculdades do Brasil, jovens que possam ajudar a mudar a estrutura do Brasil!
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.
Foto: Tadeu Nascimento