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A inteligência artificial já faz parte da nossa rotina e também chegou às escolas. Ela pode ajudar na pesquisa e no aprendizado. Mas seu uso traz dúvidas quando há suspeita de que um estudante entregou um trabalho feito por inteligência artificial. Como saber o que realmente aconteceu? E como garantir que ninguém seja punido injustamente?

O Conselho Nacional de Educação (CNE) estabeleceu uma orientação importante: o resultado de um programa detector de inteligência artificial não pode ser usado sozinho como prova para punir ou reprovar um aluno. Uma porcentagem de suspeita apresentada por um sistema não é suficiente para zerar uma nota, aplicar uma sanção ou impedir a aprovação.

Essa orientação merece atenção porque a tecnologia não é perfeita. Os detectores podem cometer erros e apontar como artificial um texto escrito pelo próprio estudante. Isso pode acontecer quando a pessoa escreve de maneira formal, usa frases bem organizadas ou segue um estilo que o programa considera suspeito. Alunos neurodivergentes (termo usado para descrever uma pessoa cujo funcionamento cerebral, processamento de informações e comportamento diferem do padrão considerado típico pela sociedade) também podem ser prejudicados por avaliações automáticas que não consideram as diferentes formas de pensar e de se expressar.

Diante de uma suspeita, é necessário olhar para a situação com cuidado. O professor pode conversar com o estudante, pedir que explique como desenvolveu o trabalho, observar versões anteriores do texto, analisar anotações e considerar outras evidências. O objetivo não deve ser encontrar alguém para culpar, mas compreender o que aconteceu. O estudante também precisa ter a oportunidade de apresentar sua versão e esclarecer dúvidas. A decisão final deve ficar sob responsabilidade dos educadores, considerando o contexto, as evidências e os critérios da instituição.

Isso não significa que o uso indevido da inteligência artificial deva ser ignorado. As escolas podem orientar os alunos sobre quando e como essas ferramentas podem ser utilizadas, explicar as regras de cada atividade e agir quando houver evidências concretas de desonestidade acadêmica. O que não é justo é transformar a indicação de um programa em uma sentença automática.

A educação precisa acompanhar as mudanças tecnológicas sem deixar de lado o diálogo, o bom senso, o respeito e as diferenças individuais de cada aluno. Ferramentas digitais podem ajudar na análise de um trabalho, mas não substituem a observação humana, a escuta e a responsabilidade de quem educa.

Antes de tirar conclusões, vale refletir: estamos usando a tecnologia para compreender melhor os estudantes ou para julgá-los sem ouvir suas explicações? Ensinar também é orientar, investigar com cuidado e corrigir quando necessário, sem abrir mão da justiça. A tecnologia pode apontar uma dúvida, mas é o olhar humano, atento e responsável, que deve ajudar a esclarecer os fatos.

José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida e LIV (Laboratório Inteligência de Vida). Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.