A borboleta pousada / ou é Deus / ou é nada. Esse curtíssimo poema é de autoria de Adélia Prado, poetisa, professora, filósofa, romancista e contista considerada uma das maiores do Brasil e entre as maiores de todos os tempos. Essas nove palavras, pinçadas do dicionário e direcionadas pelas privilegiadas sensibilidade e inteligência dela, mostram que o ser humano é a mais perfeita criatura de Deus. Com o tempo, o homem desenvolveu sua capacidade intelectual e atingiu patamares inimagináveis há algumas décadas e a Inteligência Artificial (IA) é uma delas, pois deixou de ser algo ligado somente à ficção científica e está cada vez mais presente no dia a dia até mesmo de pessoas comuns que, muitas vezes, nem sabem que já a utilizam.
Estudos sobre a IA não são novos. Na década de 1930, quase há cem anos (isso mesmo um século!), o inglês Alan Turing, matemático considerado o pai da computação, entre outros instrumentos essenciais hoje em dia, criou o termo algoritmo, importante palavra na Inteligência Artificial, que foi cunhada pelos pesquisadores John McCarthy, Marvin Minsky e Claude Shannon em 1956, dois anos após a prematura morte de Turing.
Maravilhosa descoberta que pelos nossos dias começou a ganhar mais e mais importância passando a integrar segmentos da Indústria, Economia, e vários outros, inclusive na Educação. Convém destacar que a IA pode ser um excelente instrumento para auxiliar a facilitar e a desenvolver os estudos, mas jamais poderá substituir os professores, como algumas autoridades já imaginaram. Políticos sem noção alguma da verdadeira educação já chegaram a dizer a heresia de que a profissão de professor era a última a ser escolhida pelos jovens. Professor é um tipo de sacerdócio mal remunerado.
Nas salas de aula a IA tende a se tornar uma ferramenta utilíssima para ajudar os mestres na tarefa de levar os alunos a entenderem e se aprofundarem em determinado assunto. A Inteligência Artificial pode muito bem ajudar o homem a desenvolver sua nata e inigualável inteligência humana, aquela com que praticamente todos nascemos e uns desenvolvem mais do que os outros. A IA tem de ser vista como uma ferramenta que auxilie as pessoas em sua evolução e não algo que impeça seu crescimento. Um trabalho, seja do Ensino Médio, da universidade, pós-graduação ou doutorado, não pode ser produzido por IA, pois, a partir do momento em que o ser humano entender que pode deixar tudo por conta dessa ferramenta, verá interrompido seu processo de desenvolvimento intelectual e de aprendizado.
No entanto, essa mesma máquina, que se bem utilizada pode auxiliar em vários segmentos da sociedade, precisa ser alimentada pelo ser humano com informações básicas do homem, da mulher, da vida e do dia a dia. Criar dependência dessa ferramenta é muito perigoso, pois quando, ou se, isso acontecer não se dará mais vazão à inteligência humana, que ficará estagnada e tende a se atrofiar.
No caso do Brasil, um dos grandes entraves para a expansão da IA talvez esteja na falta de acesso à internet de qualidade num país de tamanho continental. Sem esse item essencial, a IA simplesmente deixa de ter uma função auxiliadora e a borboleta pousada, em vez de Deus, aí, sim, literalmente, passa a ser nada.
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina.