Todos os que moram no Brasil acompanharam as tristes notícias sobre os desmoronamentos em várias cidades da Baixada Santista. Como o Blog do Chiarella praticamente se restringe à cidade de Santos, vou me limitar aos nossos problemas, pois vivemos um momento de extrema preocupação e tristeza pelo que se passou na nossa cidade. Falo especialmente dos casos de perdas de vidas no morro São Bento e onde tivemos, além de oito mortos, 185 desabrigados. No total, na Baixada, já são 41 mortos e 39 desaparecidos. Lamentável e triste demais.
Em momentos difíceis como esse é que vemos aflorar, de forma instintiva, a solidariedade humana. Aí vem à tona e à nossa memória a família, como tratamos nossos familiares, o tempo que gastamos com filhos, maridos, esposas, enfim, todos que integram esse restrito círculo. Nos dias de hoje esse conceito de família ganhou uma amplitude muito grande e, para me limitar a falar sobre o assunto em questão, a catástrofe, vou definir como espectro familiar que cada um pode ter o que considera ideal, adequado ou aceitável.
Quando perdemos a família é que sentimos os problemas das ausências, pois apesar de muitos negarem, a família sempre foi, é, e continuará a ser, a base de tudo. Mesmo dentro desse definido espectro familiar, ver tanta gente morrendo próxima de nós – vamos combinar que é bem diferente lermos ou vermos notícias da China, do Japão ou de outros países bem distantes em termos físicos e da nossa realidade – acaba a nos levar a lidar diretamente com esse assunto. A solidariedade é instantânea e, com isso, surge muita ajuda de todos os cantos. Até mesmo gente que precisa de ajuda, acaba auxiliando os mais necessitados.
Afinal, o que pode nos educar numa catástrofe como essa? Que ideia é essa de aprender com um fato desse? A ideia original seria de que a família educa e a escola ensina. No entanto, enquanto a família não estiver devidamente preparada, a escola assume os dois papéis: educar e ensinar. Nesses momentos de aflição, onde amigos diretos, ou amigos de gente que conhecemos enfrentam essas dificuldades, nossas crianças e jovens, que frequentam o Fundamental I e Fundamental II, responsabilidade da Prefeitura de Santos, fazemos a pergunta: eles se compadeceram? Muita gente de dentro das escolas, moradores dessas comunidades, sofrem mais de perto e catástrofes, algo que jamais gostaríamos de ver acontecer, podem ser usadas para nos ensinar a ser solidários, a ter empatia, que é sentirmos o que os outros passam.
No entanto devemos destacar a grande responsabilidade dos nossos governantes, no caso específico o prefeito de Santos e seus secretários de Governo. Claro que não foi somente esse governo, que aí está há oito anos, mas todos os outros que passaram pela cidade e permitiram que se construíssem moradias em locais de altíssimo risco. E nada me convence que eles não sabiam. Deveriam saber, pois deveriam governar para todos e não somente para os mais favorecidos. Os nossos governantes andam por esses lugares preocupados somente em pedir votos e, providencialmente, se esquecem das pessoas que vivem nesses locais claramente perigosos. Poucos cumprem realmente seu papel e colocam o pé na lama para ajudar os necessitados.
A catástrofe pode educar quando mostro aos jovens e às crianças o quão privilegiados são os que moram distante dessas zonas de risco e que todos temos de, além de cobrar atitude direta da Prefeitura, do secretariado e dos vereadores, nos compadecer com a vida alheia, daquele que, em termos bíblicos, é chamado de nosso próximo, mesmo que esteja distante e nunca sequer o termos visto. Precisamos aprender que temos de ajudar, temos de agir e não somente ter pena. Uma catástrofe como essa também te educa a agir.
José Roberto Chiarella, o professor Chiarella, é educador. Professor de Educação Física formado em 1986 e coordenador do Colégio Objetivo na Baixada Santista na cadeira de Direito e Cidadania e Formação para a Vida. Advogado com especialização em Direito Digital pelo Mackenzie e mestrado em Relações Internacionais Laborais pela Untref, na Argentina e Relator da 14ª turma do Tribunal de Ética na OAB/SP.